LIBERDADE SOBRE RODAS [ 25-06-2008 ]
Minha infância se passou em meio aos cantos dos pássaros da Rua Dona Mariana, no Rio de Janeiro. O convívio na casa de minha avó, o almoço ao chegar da escola, as brincadeiras no jardim do misterioso casarão, com suas árvores velhas do outro lado da rua, são algumas das boas lembranças que guardo em minha alma. E o que é o tesouro da alma que não esse permanente arquivamento dos momentos raros que nos constroem. Momentos que se constroem em meio às cores, sensações, cheiros e impressões que entram pelos olhos de uma criança.
Esta semana lembrei-me de um dos momentos especiais que passei na Rua Dona Mariana. O dia em que aprendi a andar de bicicleta.
Minha primeira bicicleta imitava as linhas de uma moto, amarela e preta, foi rapidamente adaptada com rodinhas nos dois lados, para impedir que eu caísse. As rodinhas me davam segurança para conduzir a bicicleta sem medo. Eu me sentia muito bem, correndo sem cair.
Então, logo que comecei a me sentir seguro, meu padrinho Felipe Moreyra, me apresentou um novo desafio, retirando as rodinhas, mandando eu subir na bicicleta e pedalar. Minha lembrança do tio Felipe sempre remetia a momentos de desafio e enfrentamento do medo. Lembro-me que foi com ele que, pela primeira vez, enfrentei as ondas do mar. Também lembro-me que me rodava, segurando-me pelos braços.
Saber enfrentar o medo está diretamente ligado ao enfrentamento de novos desafios. Um dia, sem avisar, ali mesmo na rua, eu aprenderia a retirar as rodinhas de apoio. E lá fui eu, pedalando minha bicicleta, durante meio segundo até perder o equilíbrio e cair com tudo. Uma das coisas que me lembra o sabor da infância é ardência de joelho ralado. E essas marcas são as marcas da alma, a digital da vivência, as impressões do aprendizado.
Lembro-me de ter me deparado com um dilema. Como poderia ser possível pedalar sem aquelas rodinhas?
Porém, tio Felipe insistiu e eu tentei de novo, e caí mais uma vez.
Minha frustração aumentou e fiquei a ponto de desistir de tudo aquilo. Eu me perguntava: "Se estava bom dessa forma, porque retirar as rodinhas?" É mais difícil pedalar sem as rodinhas!
Mas se elas não tivessem sido retiradas, eu jamais teria aprendido a andar de bicicleta. Somente assim é que você, de fato, está usando sua habilidade em vez de depender de ajuda externa. Talvez você caia algumas vezes, mas quando tentar pedalar de novo, acabará adquirindo equilíbrio e a bicicleta irá em frente.
Essa história me fez lembrar os bons momentos do começo do aprendizado espiritual, na presença do meu mestre. Meu querido amigo Daniel Benari tinha uma capacidade extraordinária de entusiasmar e motivar as pessoas. No início do processo, sem a presença de Daniel Benari, foi difícil manter o entusiasmo e a motivação para continuar o trajeto espiritual. Mas aprendi que é, removendo as rodinhas (os apoios), que se desenvolvem as habilidades reais.
Hoje me vejo no lugar ocupado por Benari e quando me deparo com a falta de entusiasmo de alguns alunos, me preocupo. Nestes momentos lembro-me de meu padrinho na rua Dona Mariana, que foi a primeira pessoa a me retirar as "rodinhas".
Quando a pessoa entra em contato com o mundo espiritual, e o desvendar do auto-conhecimento, pela primeira vez, há uma empolgação e um entusiasmo diferente de qualquer outra coisa no mundo.
Esta inspiração inicial é uma pequena ajuda por parte de nossos mestres: são as "rodinhas" de treinamento espiritual que nos ajudam a começar nossa jornada. Porém, quando as tiramos, quando avançamos pelo caminho e estamos prontos para ir mais longe, as rodinhas de treino são retiradas e temos de seguir por nossa conta. A inspiração pode desaparecer, a motivação, por um momento, pode se esvair e nos desequilibramos. Mas este é o verdadeiro teste. Quando tal empolgação diminui, alguns caem fora da via do crescimento espiritual. Essas pessoas acham que a diversão acabou, que o caminho espiritual não é pra elas, e então partem para outra. Se fizermos isso, então perdemos a chance de atingir o próximo nível de nossa evolução; conectar com nossa alma através dos próprios esforços.
É exatamente no momento em que a inspiração diminui, que devemos começar o nosso verdadeiro esforço, o verdadeiro trabalho da alma. Em vez de ser impulsionado por uma motivação artificial externa, a pessoa deve olhar para dentro e começar a pedalar, com uma inspiração criada por ela mesma. E é desta forma que o caminho espiritual se torna nosso, algo pelo qual trabalhamos e adquirimos com esforço pessoal.
Cairemos algumas vezes, porém cada queda traz uma chance de levar as coisas até o próximo nível. Continue pedalando, motivado ou não, e avançará cada vez mais na jornada do crescimento interior.
E assim chegará o momento em que iremos entender que o objetivo das "rodinhas" de apoio é exatamente nos preparar para os momentos em que elas não estarão conosco.
Olho para trás, enquanto pedalo e vejo, já ao longe, o tio Felipe acenando sorridente, enquanto eu ganhava velocidade e o vento no meu rosto anunciava uma nova etapa de meu crescimento, sem rodinhas de apoio.
O segredo é continuar pedalando... sempre.
Mario Meir