O salto proporcionado pelo Pessach, permitindo a libertação física do povo hebreu de Mitz'rayim, não fora ainda suficiente para que ele pudesse alcançar, de fato, uma nova consciência. As mudanças a serem promovidas necessitam de tempo e trabalho para que possam, realmente, produzir efeito, mais precisamente 49 dias, um período difícil, porém muito valioso.
Segundo a Cabalá, o número 49 é a guematria da palavra hebraica 'cholê', traduzida como 'doente'. Mas também é a guematria da palavra 'lati', que significa 'meu silêncio'. Portanto, o povo estava doente, mesmo após a conquista da liberdade física; e somente pelo silêncio, pela introspecção e auto-conhecimento, pode-se alcançar o antídoto, a cura.
Mas, o que significa a Contagem de O'mer? Contar é uma palavra código, utilizada na Torah, que significa "avaliar". A contagem impõe, assim, uma avaliação. Todas as vezes que esse comando é dado por HaShem aos filhos de Yis'rael, há uma ordem para que avaliem algo, especificamente. A Contagem de O'mer, assim, traduz um comando muito especial e delicado.
O O'mer é conhecido como uma medida de trigo. Era exigido, durante esses 49 dias, que o povo oferecesse uma determinada porção de trigo, por dia. O trigo é uma manifestação física da Sh'khiynah, da Presença Divina. É um grão que já existia no Gan Éden (Jardim do Éden), e que pôde se materializar na nossa dimensão física, de forma podermos percebê-la e utilizá-la, hoje.
Portanto, a Contagem de O'mer é uma avaliação que devemos fazer dessa Presença Divina, em toda a nossa vida, ou melhor, em todos os níveis da nossa Árvore da Vida, buscando, assim, reconstituí-la em todos os seus aspectos.
Mas não a reconstruímos de uma só vez, num só dia. É preciso construir e fortalecer cada uma das 7 sefirót que podem ser manifestadas no mundo físico, para, então, acessarmos a inspiração das 3 sefirót superiores.
Por isso, no O'mer, percorremos cada uma delas. Os 49 dias existem justamente para isso. Quarenta e nove, é o resultado final desse percurso. Embora sejam sete as sefirót a serem reorganizadas em nossa vida, cada uma delas possui as demais dentro de si, as 7 dentro das 7 (7x7 = 49).
Quando avaliamos esses 49 níveis, injetamos Luz Espiritual em cada um deles, refinando, dessa forma, nossa vida e, consequentemente, nossa alma.
Concluímos, assim, que a aquisição de uma nova consciência, de uma nova perspectiva e percepção sobre os fatos e sobre a realidade, não se dá imediatamente, logo após nossa escolha e decisão por mudanças. Ou seja, não basta, simplesmente, desejarmos a mudança e nos predispormos a alcançá-la. É necessário trilhar o caminho, construir a realidade, libertar-se de Mitsraim e reorganizar as sete sefirót.
A Árvore da Vida, segundo a Cabalá, é um diagrama universal que constitui todas as dimensões existentes, em todos os planos e reinos, desde a grama, o ser humano, até as mais complexas e distantes constelações. Tudo é construído a partir dessas 10 sefirót. Elas nada mais são do que formas de captação e revelação da Luz do Mundo Infinito, verdadeiros "recipientes", como designam os cabalistas.
Embora a Árvore da Vida seja dividida em 10 sefirót, não significa que se afaste do conceito de Unidade, defendido pelos cabalistas. Sefirah, em hebraico, significa 'medida', 'peso'. Portanto, desenvolvermos seus atributos impõe uma avaliação sobre a medida e o peso que eles possuem em nossa existência.
A partir do momento em que realinhamos as sefirót, religamos os canais que as unem e permitimos o acesso às dimensões superiores. É, neste instante, acontece 'Shavuot', a revelação da Torah, da Verdade, da Sabedoria.
Eis porque fazemos a comtagem a partir de Pessach e não até Shavuot. Não podemos causar Shavuot, mas sim construir o caminho em sua direção. Nós construímos a base do O'mer, naquilo que temos como início em Pessach. Este é o nosso objetivo: "Hoje, é um dia de O'mer - nós construímos um dia"; "Hoje, é o segundo dia do O'mer - nós construímos dois dias".
Essa é a verdadeira libertação - não somente a física, mas de valores, de idéias e de princípios. A libertação espiritual é a compreensão de que a Realidade é bem maior do que a que podemos captar por nossos cinco sentidos. A partir do momento em que reorganizamos nossas sefirót, vivenciando os atributos e qualidades de cada uma delas, preparamos, assim, o nosso receptor para que a Luz possa se manifestar, ser perceptível.
COSTUMES DE O'MER
Durante a contagem do O'mer, que tem início no segundo dia de Pessach, é um costume entre as comunidades que não se corte cabelo da cabeça, não se inicie um novo negócio, não se case e não se celebre bar mitz'vah.
A única exceção é no dia de Lag Ba O'mer, onde tudo isso é permitido.
A contagem de O'mer dura, ao todo, 49 dias. Durante estas sete semanas refinamos as sefirót de Chessed à Mal'khut em nossa Árvore da Vida através de meditações específicas. Cada semana corresponde a uma sefirah e cada dia é regido por uma sefirah interna da sefirah principal (cada sefirah possui a sua própria Árvore da Vida).